Rádio Reverberação

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

As instituições político-culturais da península ibérica durante a expansão ultramarina e a “descoberta” do continente americano.

Vista do Largo do Paço (Jean Baptiste Debret, c. 1830). O Paço Imperial do Rio de Janeiro é o edifício do lado esquerdo do largo. Ao fundo vêem-se, da esquerda para a direita, o Convento do Carmo, a Catedral e a Igreja da Ordem Terceira do Carmo. No centro, em primeiro plano, está o Chafariz de Mestre Valentim.



Estado, para António Manuel Hespanha, é uma entidade, que possui um poder, exclusivo, de coação legítima, e que organiza e executa os interesses públicos (HESPANHA, 1984). No entanto, a existência simples de um Estado, no sentido conceitual, não dá conta de explicar a sua real organização, assim como a sua efetiva ação para com o poder público, em prol de seus interesses. Dois tipos de organizações que foram fundamentais para uma união do território, principalmente do império marítimo português, segundo Charles Boxer, são o Senado da Câmara e as irmandades de caridade e confrarias laicas (BOXER, 2002).

Essas instituições, e suas ramificações se portam como elementos da fragmentação de poder não centralizado, ou seja, o Estado não tem um mecanismo de aglutinação do poder, nem no reino, nem nas colônias, e esses órgãos locais tinham como função suprir a falta de um poder superior que pudesse, então, estruturar a organização social. A partir disso, as relações de poder eram ainda mais divididas. Nas Câmaras existiam os homens bons, grupo formado por uma burguesia pré-capitalista, cuja função era ordenar as cidades do reino, quanto a tributações, expansão e manutenção do espaço urbano, etc. Ainda havia a representação da classe dos oficiais mecânicos, que na maioria das cidades formavam os Doze do Povo, que consiste em doze homens escolhidos para atuarem junto ao conselho municipal das cidades do reino. Ainda existiam em cidades como Lisboa, do Porto, e em algumas outras, a Casa dos Vinte e Quatro, que tinham a mesma função.

Não somente esse tipo de organização se mostra presente frente ao império. As formas de se administrar as colônias são semelhantes às de administração, guardadas as suas proporções. Estruturas essas, para o momento de expansão marítima, a partir do século XVI, podem ser estruturadas nas seguintes instituições de relacionamento e administrativa. Os vice-reis e governadores eram uma extensão do poder real, que não tinha condições de interferir diretamente na colônia. Eles muitas vezes detinham autoridade suficiente para alterar ordens régias caso essas não se aplicassem a uma localidade específica. Os donatários de capitanias, governadores gerais, e juízes seguiam a ordem hierárquica de administração, com um poder de decisões também fortes. E mais uma vez aqui se nota que o problema do distanciamento ainda interfere nesse nível de organização, isto é, mesmo com um governador-geral na colônia, tendo a América como referência devido ao seu território continental, alcançar a solução de um problema de caráter local ainda era distante a se tratar com o mais alto posto hierárquico administrativo.

Dessa forma, as Câmaras Municipais tinham como função, também, de um tribunal de primeira instância, em casos sumários, e para apelação passa-se por um Ouvidor, uma espécie de juiz da Coroa, ou pelas Relações coloniais, que tinha como função se portar como um tribunal superior. Nesse sentido, as formas administrativas nas colônias, seguindo o padrão metropolitano, também eram extremamente fragmentadas, em um momento em que os próprios “Estados” europeus ainda passam por uma estruturação interna.


Referências Bibliográficas

HESPANHA, Antônio Manuel (coord). Poder e Instituições na Europa do Antigo Regime. Lisboa: Fundação Gulbenkian, 1984.

BOXER, Charles R. O império marítimo português. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

as mãos do acaso



Recentemente ouvi uma frase que achei curiosa, mas que tem um forte conteúdo que eu discordo. A frase era algo parecido com “deixar nas mãos do acaso”. Por definição “acaso” é aquele acontecimento imprevisto, que vem com a casualidade e por vezes depende da sorte para ocorrer. Acho muito arriscado deixarmos que as coisas aconteçam conforme a vontade do acaso. Deixar as ações se resolverem a nossa revelia não me parece ser uma opção justa. Não acredito em destino, que as coisas ocorrem porque há uma força maior que guia nossa vivência... não! isso é uma idiotice. Mas eu acredito que nossas vidas podem mudar a partir de sensações. Estamos em contato com a natureza, com as pessoas e conosco mesmos e essa constante relação nos provocam reações, essas sim, inesperadas. No entanto, essas tais reações não têm nenhum tipo de poder se tivermos, mesmo que seja ínfimo, o controle de nós mesmos. O acaso só existe quando estamos no sofá de casa assistindo um jogo de futebol e de repente temos um “insight” seja lá sobre o que for. A coisa acontece ao acaso quando não temos nenhum tipo de ciência sobre ela. Mas quando se trata de vontade, de necessidade e daquilo que seremos não podemos relegar tudo ao acaso. Coitado, ele já tem coisas demais para pensar... deixar nossas vidas nas mãos dele é muita coisa. Em inúmeros casos temos que fazer escolhas que somente nós podemos fazer... o inesperado não tem nada a ver com isso. O que queremos ser, onde ir, com quem queremos conviver são escolhas nossas. Em algum momento o acaso agirá, afinal quando escolhemos algo não sabemos onde chegaremos, aí o acaso toma conta, mas para isso temos que fazer decisões prévias, devemos dar cara a tapa, devemos ouvir nossos corações e seguirmos pelo caminho que acreditarmos que será o melhor para a gente. Aventurar em terras estrangeiras em um intercâmbio incerto pode ser interessante, mas redescobrir o que tem em nosso quintal às vezes pode ser uma experiência incrível. Nem todas as decisões que um homem deve tomar para a sua própria vida têm que ser benéficas imediatamente, e muitas vezes só nos damos conta disso muito tempo depois. Avançar ou abortar uma ação deve ser uma escolha nossa e não de uma força abstrata, porque vivemos o real e não o acaso.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Sempre imagine mais!!


SE EXISTE UMA BOA COISA ARTIFICIAL sem dúvida é a imaginação. Quais são os caminhos que ela percorre? Talvez a estrada de tijolos amarelos; ou a Floresta Negra; talvez um que passe bem perto do Ermo do Lampião. A imaginação está nas penas do mais erudito dos historiadores, nas partituras do mais intimista dos músicos, ou nos cautelosos movimentos do mais intrépido ator. A imaginação está em todos os lugares e em todas as pessoas. No entanto, na maioria das vezes ela fica lá escondida, sem dar o ar de sua graça. Ela vive estocada no fundo de uma gaveta escura e úmida, ou anos a fio em uma estante empoeirada... ali parada com muitos olhos a observá-la, mas com nenhum toque corajoso para enfrentá-la. Até na hora de contarmos a mais pura das verdades a imaginação aparece para embelezar o relato. Ela tem uma relação dúbia com a verdade... uma hora ela se alia ao fato para enriquecer o inegável... uma hora o inegável é a própria imaginação, sendo o fato todo apenas fruto daquilo que não poderia ter acontecido. A questão é que nada disso importa. Todo indivíduo dotado de inteligência deveria exercer a sua imaginação, fazer perpétuos contratos com o fantástico. Cada parte de nossa experiência no tempo e no espaço é um mero produto de decodificações de informações processadas pelo cérebro. Cada pessoa vê as cores em tons diferentes, sente calor em diferentes intensidades, ou escuta sons em diferentes frequências. A natureza existe ao mesmo tempo em que é apenas um jogo de significantes e significados, representações delas mesmas... afinal, as árvores por definição são todas iguais, mas na “realidade” isso acontece?  Não há idade ou gênero para a imaginação. Umas são mais inocentes do que outras? É claro que sim, mas todas fazem sentido em um determinado auditório. Temos que ler mais livros, assistir mais filmes, escutar mais músicas, fazer as nossas próprias representações da realidade, seja ela verdadeira ou não. Os homens estão sonhando cada vez menos, e isso faz com que Fantasia seja consumida pelo Nada... e quando isso acontecer definitivamente, no momento em que a Torre de Marfim sucumbir, as coisas deixarão de fazer sentido e nos tornaremos mais burocratas do que os Vogons, e nunca mais pediremos corona pelas galáxias! Aí a vida acaba! Descansem em Paz...

domingo, 16 de dezembro de 2012

Nem sempre pão ou pães é questão de opiniães

Gravura medieval que representa um professor ensinando a arte
da "disputatio", uma das mais importantes peças da retórica escolástica

Acredito profundamente que há uma linha tênue entre a opinião estruturada e a ignorância deliberada. No entanto, essa é uma diferença que apenas com um microscópio podemos perceber. Evidentemente que em uma sociedade política não existe a possibilidade de homogeneização de pensamento, não há topoi que consiga de forma harmoniosa condensar todas as ideias e fazer com que todos partilhem... o que é significativamente positivo. Mas deve-se observar que hoje, de forma potencializada pelo rápido acesso a informação, de qualidade ou não, existe mais um descompasso de ideias do que divergências propriamente ditas. O que quero dizer com isso? Divergências PARA MIM se dá muito no âmbito do diálogo, do debate acerca de um determinado tema. Uma questão é exposta e os indivíduos supostamente inteligentes tentam de alguma maneira chegar a um denominador comum. Esse é um processo desgastante, que exige muito esforço das duas partes, mas que em determinado momento se entenderão, o que não quer dizer que vão concordar uns com os outros. Mas o descompasso EU entendo como preguiça de pensar. Essa preguiça acontece no momento em que o preconceito e a desinformação passam a dominar o pensamento de um indivíduo. PSDBistas são incapazes de admitir que o governo da Dilma é bom; os Machos Alfas da sociedade não têm maturidade intelectual para compreender que a adversidade existe, sempre existiu e que não é (nem de muito longe) um problema para a sociedade patriarcal ruralista cristã conservadora; as “torcidas organizadas” confundem paixão por um esporte com violência, depredação e desrespeito com a torcida adversária, organizadas ou que só gostam do bom futebol O pior é que dentro desse “descompasso” os pensamentos nem sempre são naturais... há muitos discursos fabricados especialmente para determinados assuntos. Seja para criar polêmica, seja para provocar uma situação constrangedora, seja por autopromoção, há opiniões que são tão cretinas que é inconcebível que uma pessoa do século XXI acredite naquilo. Disse e repito... não é questão de todos concordarem, isso seria realmente entediante, mas a razão e a coerência devem tomar lugar do preconceito e da ignorância.

Cappucino Picante



Ingredientes

1 pimenta dedo-de-moça pequena, bem picada e sem sementes
1 xícara (chá) de açúcar
3 claras
1 litro de leite
6 colheres (sopa) de chocolate em pó
2 colheres (sopa) de café solúvel


Modo de preparo

Em uma panela, misture a pimenta com o açúcar e uma xícara (chá) de água.

Leve para ferver, sem mexer, até obter uma calda em ponto de fio.

Enquanto a calda se forma, bata as claras em neve. Não desligue a batedeira e despeje a calda em fio. Bata até que a tigela da batedeira esfrie.

Está pronto o marshmallow.

Em uma panela, misture o leite com o chocolate em pó e o café solúvel até ficar homogêneo.

Leve ao fogo médio até ferver.

Sirva em canecas com o marshmallow.

Rendimento: 4 porções
Tempo: 60 minutos

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

O "monarquismo" e o passado que não passa


ONTEM À NOITE enquanto eu estava fazendo uma pesquisa na internet sobre os partidos e movimentos monarquistas que surgiram depois da proclamação da República no Brasil me deparei com um blog muito “interessante”, do Partido Monarquista Parlamentarista Brasileiro (http://partidomonarquista.ning.com/). Um movimento atual que visa, assim como eles mesmos dizem, “resgatar valores morais e éticos da nobreza!”. Uma iniciativa muito curiosa se formos ver com os olhos democrático-republicanos de 2012. Assim como Carlo Ginzburg já bem nos disse, quando estamos na internet clicamos em um link aqui, achamos outro ali, que nos leva em um site acolá... e eis que me deparo com o Instituto Brasil Imperial (http://www.brasilimperial.org.br), uma organização “histórico-cívico-cultural” que tem trabalhado muito no campo do estudo e divulgação do Brasil Imperial e da família Orleans e Bragança (http://www.monarquia.org.br/) que orgulhosamente ostentam o título de Família Imperial Brasileira. Ontem mesmo fiz uma brincadeira aqui no Facebook postando uma imagem que defende fielmente o retorno do regime monárquico no país. A princípio eu pensei que talvez isso fosse o auge da ignorância política, concordar com um retrocesso de 123 anos. Talvez o seja, mas ao somarmos com a estapafúrdia vontade de uma grande militância de direita em querer restaurar a ARENA, o assassino partido do regime monstruoso-militar brasileiro, bem como uma onda política de caráter extremamente religiosa, que é muito mais intensa daquela do Partido Católico Mineiro, natimorto em 1890, vemos que hoje há uma crise do passado político nacional. Não sei ao certo se o passado está “ressurgindo” ou se ele ainda não passou. O fato é que a História ainda não conseguiu resolver problemas ligados à tradição e que insistem em se manter vivos no ideário de nossa sociedade. No caso da monarquia não acredito no poder político de quem acredita nisso, mas eles são um expressivo sintoma de um pensamento conservador reacionário que a cada dia que passa fica cada vez evidente no cenário político nacional e tumultua aquilo que vou chamar de “progresso” do país. Mais do nunca vejo a importância da História e dos historiadores na ingrata tarefa de solucionar um passado conturbado, que cada vez mais toma conta e ofusca nosso já sofrível presente.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

O 7 de outubro de 2012

charge de Alfredo Storni, de 1927, que satirizava o "voto de cabresto", comum durante 
o período da República Velha em que o voto era imposto e controlado pelos coronéis.


As urnas são computadores com joguinhos do Facebook. São instrumentos importantíssimos para a definição do futuro próximo da política de administração pública em nosso país. Eu sei que a obrigatoriedade do voto no Brasil é quase uma releitura do “voto de cabresto” do início do século XX, mas nem por isso deve ser tratado com descaso. Muita coisa está em jogo, tais como a possibilidade de melhoria da educação, da saúde, da urbanização, de possibilidade de trabalho e outros DIREITOS do povo. Não cabe a nós cidadãos usarmos o instrumento do voto para nos prejudicarmos, com o cretino argumento do voto de “protesto”. O protesto deve ser feito nas ruas, nas portas das câmaras, nas praças públicas... nesses lugares sim, aí o povo tem o direito e o dever de cobrar os seus representantes. Rousseau em seu famoso (porém esquecido) “Do Contrato Social” diz que em uma democracia representativa o povo tem o poder de eleger e derrubar qualquer um das instâncias administrativas. Não é votando em palhaços, dançarinas de funk, e “super-heróis” fantasiados que conseguiremos mudar a situação politicamente calamitosa em nosso país. Na verdade isso apenas prejudica. O voto de “protesto” que mais parece um voto de “preguiça” é uma excrescência. Quem o faz não tem o direito de reclamar de nada, porque quem faz uma coisa dessa não está preocupado com o bem da nação. Quando querem que alguém vença o “Big Brother” ou “A Fazenda” o voto sempre é bem pensado, mas quando se trata de escolher vereadores, deputados, prefeitos, governadores e por aí vai, nem sempre se pensa no que realmente o candidato pode fazer por nós. Dia 7 de outubro não é dia de “festa da democracia”. Dia 7 de outubro é dia de escolher quem queremos que cuide de nossas cidades pela gente. São esses homens e mulheres que durante 4 anos vão tomar decisões por nós, serão nossos olhos, bocas, narizes, ouvidos e braços. Eleições não são brincadeirinhas; não é a mesma coisa de votar no casalzinho caipira da festa junina, ou no gol mais bonito da rodada. O Brasil não vai melhor com críticas nas redes sociais... o Brasil vai melhor quando nós, eleitores, tomarmos consciência que o voto faz sim a diferença. Portanto, vote sério, em quem você realmente acredita... e cobre diariamente quem está na câmara defendendo o seu bem-estar.