O famigerado cânone... eu acho que isso não existe mais. Em tempos de modernidade líquida e sua hiper-relativização do tempo, espaço, conceitos, valores e doutrinas está cada vez mais difícil de fazer uma listinha do que é bom e do que não é. Aliás, na era da informação em tempo real, da altíssima produção acadêmica e literária está cada vez mais difícil não seguir o tal cânone. Há poucos dias li uma reportagem dizendo que o professor do ensino básico lê pouco, e quando lê são sempre os mesmos “clássicos”, muitas vezes por obrigação que os currículos impõem ao docente e que acaba afetando os alunos que também só leem aquilo que são obrigados. O que há de novo? Quais são os grandes nomes da literatura atual? (esquerda, direita, frente, retaguarda...) Vejo hoje um enorme medo do não pertencimento, de ler as coisas erradas, ou ficar fora do grupo que acha que lê a coisa certa. Não acredito de modo algum que Dostoievski, Baudelaire e Machado de Assis não devam ser lidos, muito pelo contrário, só não entendo porque eu necessariamente tenho que achá-los melhores do que Philip K. Dick, Isaac Asimov ou Michael Crichton. A ideia de erudição fica cada vez mais restrita aos que assistem Jean Renoir, mesmo não conhecendo absolutamente nada de cinema francês da década de 1930, do que aqueles que preferem Robert Zemeckis e conhecem todas as referências do universo “De Volta Para o Futuro”. A cultura do “parecer ser” é, em tempos de conservadorismo político, tão forte que se acredita piamente que Goethe resolve os problemas de nossa contemporaneidade. Reafirmo que os grandes clássicos são chamados assim não é à toa, têm seu enorme valor dentro da história mundial, devem e merecem ser estudados. No entanto, em pleno ano de 2013 devemos ainda ter uma visão cristã para definir os cânones de nosso tempo?! Para sermos diferentes e começarmos a aprender pra que servimos no mundo hoje temos que parar de construir uma erudição vazia de sentido e inserir no cânone (se é que ele existe, eu acho que não) o que Também é bom fora do óbvio, mesmo que seja popular, afinal... nem tudo que é produzido pela e para a elite tem qualidade garantida.
Rádio Reverberação
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
O historiador e o que é importante para a historiografia
Pesquisadora examina corpo exumado
Talvez essa afirmação tenha lá o seu grande peso de verdade, mas é só isso?
Nós historiadores hoje estamos criando uma gigantesca massa crítica que não critica absolutamente nada. Crítica aqui eu estou considerando a capacidade de leitura e análise de uma determinada questão a ser debatida. Temos cada vez a tendência enfadonha de classificar aquilo que é ou não é relevante para a historiografia. A partir daí construímos um cânone imaginário para um monte de tema que classificamos como politicamente elegante de ser estudado e aquilo que é perda de tempo, e o grande crime... perda de dinheiro!
Hoje foi divulgada uma pesquisa que está dividindo a opinião dos historiadores. Uma pesquisadora da USP, Valdirene do Carmo Ambiel, desenvolveu nos últimos três anos uma investigação que convergiu estudos históricos, arqueológicos e médicos ao exumar os corpos do ex-Imperador do Brasil, Dom Pedro I, e de suas duas esposas, as ex-Imperatrizes D. Leopoldina e D. Amélia. (a matéria saiu no portal do Estadão). Embora a matéria, e a entrevista com a pesquisadora apontem para descobertas pouco conclusivas em alguns aspectos, em outros é possível derrubar algumas teses há muito tempo difundidas pela historiografia, tal como a possível causa da morte de d. Leopoldina (veja a matéria para compreender melhor o caso).
Qual é o meu ponto?
Há uma série de pesquisadores sérios (que eu conheço) que viram com bons olhos para esse inédito método de pesquisa, bem como há outros pesquisadores que também são sérios (e que eu também conheço) que consideram a pesquisa uma babaquice e um enorme desperdício de dinheiro. Agora eu não entendo porque a pesquisa é realmente tão insignificante. Será porque se trata de um tipo de investigação que está muito mais interessada em criar novas possibilidades de leitura, e até mesmo de divulgação da disciplina, ou porque foge dos padrões canônicos acadêmicos positivistas de pesquisa historiográfica?
Concordo que não podemos festejar ainda o resultado dessa pesquisa, que tem seus pontos falhos (me diga alguém que já realizou uma pesquisa historiográfica sem NENHUM furo), mas nós sequer lemos o resultado. Desqualificar um trabalho como esse é apenas propagar o conservadorismo que faz com que o historiador seja olhada pela sociedade como um profissional fechado em seu próprio mundo (espera aí, a sociedade conhece os historiadores), ou estamos promovendo o debate sobre o que é História e o que não é?
Acredito que nós historiadores temos que começar a reaprender a olhar para o tempo. Simplesmente jogar uma pesquisa no lixo em prol a uma “história a contrapelo” é desconsiderar muito trabalho e grandes possibilidades para a própria reinvenção da disciplina. Temos que ser mais críticos conosco mesmo, e promover um debate sério acerca daquilo que nos propomos a fazer. A História está cada vez mais está perdendo sentido, e são os próprios historiadores, que não confiam em seus pares, os principais responsáveis para isso.
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
Sobre o sucateamento e a depredação de museus no Brasil
museu ferroviário da vila de Paranapiacaba, em Santo André-SP
Pierre Nora ao nos apresentar, segundo a visão dele, a noção de “Lugares de Memória” nos permite pensar sobre a importância de se considerar a materialidade da história. Há momentos em que não podemos simplesmente acreditar na ideia de que um lugar é só um lugar. O nosso passado, como bem sabemos, está trancado a sete chaves em sua totalidade, mas pode e deve ser resignificado sempre seja nas penas de um historiador, nas festas populares, na tela do cinema ou em um museu. Mas infelizmente por vezes a materialidade do passado, os lugares que nos fazem rememorar os tempos pretéritos simplesmente são ignorados pelas autoridades, são sucateados por maus administradores ou depredados por vândalos que não tem a menor noção da importância que isso tem para o desenvolvimento da identidade de um povo. Sempre é triste ler notícias como a da depredação do Museu Ferroviário de Paranapiacaba... roubos, depredações e outros atos maléficos destoem o patrimônio, apagam a história e empobrece a cultura de nossa nação. Pr’álem dos atos criminosos contra o museu... ao ver as fotos do lugar é possível perceber que o museu está jogado às moscas... um lugar que no passado era imponente e fundamental hoje não passa de um galpão velho e destruído (bom, pelo menos é que é possível ver pelas imagens... nunca fui lá). É uma pena que esses fragmentos da história estejam sendo apagados deliberadamente e pouco se faz para que isso mude. Hoje em dia é comum lermos notícias sobre demolição de prédios históricos em todo o país para o benefício do progresso. Que progresso é esse, que prefere ser um desmemoriado do que uma salvaguarda da história do povo?
sábado, 5 de janeiro de 2013
O Estado Mínimo e a "condominização" de Pindamonhangaba
Lei que permite o muramento dos bairros de Pindamonhangaba
O “ESTADO MÍNIMO”, uma das grandes excrescências do Estado Moderno liberal, neoliberal ou qualquer coisa do tipo. Assistimos diariamente nossas cidades serem violentadas por seus administradores ao bombardearem com projetos absurdos a população, que em sua grande maioria, não consegue se defender das arbitrariedades dos poderes legislativos e executivos, independente das instâncias. Recentemente foi promulgada uma lei aqui em Pindamonhangaba que permite que os moradores de um bairro murem total ou parcialmente o perímetro urbano que lhes competem, controlando o acesso de quem entra e de quem sai do bairro como se fosse um condomínio fechado. A prefeitura da cidade também transfere todo o ônus de conservação e manutenção das áreas públicas para os moradores da cidade, tornando ela (a prefeitura) apenas fiscal das ações lá realizadas. Isso abre um precedente para que a cidade se torne um complexo de residenciais fechados que limitam o direito do cidadão de ir e vir, bem como usufruir de todo espaço urbano que lhe é de direito. Além disso, é uma forma dos órgãos públicos retirarem de si algumas obrigações constitucionais. O município se isenta de cumprir a segurança e manutenção dos bairros murados, mas não deixará, evidentemente, de cobrar seus devidos impostos. Todos os serviços prestados pela prefeitura ou por concessionárias estão embutidos nos caríssimos impostos que a população brasileira paga, e leis como essa aumenta a carga tributária para os munícipes, bem como uma série de problemas estruturais que levaria muito tempo para enumerá-las. A cidade pertence ao povo. Os bairros não são autarquias... não podem e não devem ser segregados do resto da cidade. Permitir que isso aconteça é ferir nossa cidadania, é ferir a história, é ferir Pindamonhangaba sobremaneira. Uma ação como essa não garante melhorias para a cidade... e não podemos arcar com o ônus da dúvida/dívida.
.: MachadismO :. 1 ano!
Hoje o blog .: MachadismO :. completa um ano de existência. Essa é uma marca até legal. Ando meio displicente com as minhas publicações, fiquei bastante tempo sem mexer com ela e até mesmo não tenho produzido muita coisa original, mas isso não importa. O importante é que este é um dos meus melhores meios de desopilação. Escrever pro vento sempre foi uma coisa que me animou muito, sempre foi uma terapia. Agora que estou em uma fase de profundo estresse por conta da minha dissertação falar para o nada sempre alivia essa tensão. Espero poder fazer com que esse ano o .: MachadismO :. passe a ser lido pelas pessoas, e espero poder contribuir da forma que imaginei quando criei esse blog. Se existe algum leitor secreto aí muito obrigado.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
A tênue linha entre o Público e o Privado
As noções de Público e Privado assumem, hoje, um substantivo espaço nos debates de caráter social, político e epistemológico. Elas assumem diferentes roupagens no que tange as tentativas de esclarecimento de tais categorias para a nossa contemporaneidade, visto que os horizontes de discussões acerca de suas operacionalidades são bastante amplos. A relação Público/Privado constitui uma espécie de agrupamento social em público, oferecendo aos caracteres individuais as melhores possibilidades de se imporem, assim como as opiniões individuais originais às melhores facilidades para se difundirem. O que se pode perceber é que atualmente o Público e Privado perderam suas linhas divisórias. Cada vez mais é difícil de perceber quando um termina e começa o outro, ou até mesmo em que medida um pode se fundir com o outro. Parece-me que nossa sociedade contemporânea não se preocupa mais com isso. A noção de Público é a que mais perde. Ela foi legada para a esfera do governo, aquilo que é do Estado é público, aquilo que não me atinge é público. O papel do homem na sociedade está cada vez mais individualizado, o que se quer é apenas executar as funções que nos são delegadas e mais nada, servir ao interesse coletivo não é mais um ato voluntário, e por vezes limita-se apenas em um sentimento verbalizado. A esfera Privada domina a vida do Homem, impondo seus interesses e anseios, e tentando a todo custo minimizar a força do Público. A tendência disso é piorar. O que está em jogo não é o “avanço” social, mas a “prosperidade” individual... “se for bom pra mim é bom pra todos” é a frase de ordem, não mais “se for bom pra todos é bom pra mim”, isso não existe mais. Em uma democracia representativa como a nossa isso é ainda pior, pois legamos a outro aquilo que nós mesmos deveríamos reivindicar, e não cobramos, ou se cobramos é apenas naquele momento em que uma ação nos prejudica. Cada um tem sua própria opinião (ônus da liberdade), e devem ser respeitadas; mas é lamentável aquelas que fecham os olhos para um bom maior e abre para particularidades apenas com o desejo da autossatisfação.
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