RIR DE UMA PIADA é por vezes inevitável. Escutamos, assistimos ou lemos uma história engraçada e instintivamente o botãozinho do humor é acionado. A piada é a fuga magistral da verossimilhança, o mergulho para o paradoxo, a exaltação do inacreditável. Ela (a piada) pode ter tom crítico, ser apenas uma brincadeira, uma leitura do mundo e não precisa ter compromisso algum com a verdade. Isso me parece aceitável pelo simples e ridículo fato de não sabermos onde está a verdade que todos nós filosoficamente clamamos. A mentira (irmã da piada) surge muitas vezes para encobrir as verdades que não queremos mais mostrar, e há mentiras que acreditamos tanto que passa a ter caráter de verdade, tornando-se assim uma piada sem graça. Qual é o efeito que queremos ao contarmos uma piada? Queremos fazer o mundo rir, queremos fazer o mundo chorar? Estamos verbalizando nossa felicidade ou escondendo as fracas batidas de nossos corações? Ridicularizamos o mundo, rimos das pessoas, fazemos piadas conosco, mas no final não sabemos o porquê. As verdades que acreditamos ou as mentiras que contamos fazem parte de um mundo de fantasias que todos nós criamos e negar isso é fazer uma piada de mau gosto. É necessário esconder palavras para realmente dizer o que eu gostaria, mas refutar o egoísmo é igualmente um ato de se fechar em um mundo só nosso, inventar verdades falsas e acreditar que uma piada é apenas uma piada. Cada um acredita na verdade que lhe convém.
Rádio Reverberação
segunda-feira, 20 de maio de 2013
quinta-feira, 25 de abril de 2013
O drama de Medeia
Medeia, por Eugène Delacroix
Coitada da Medeia... acho mesmo que ela poderia ter um fim diferente, que tanto poderia ser para o bem, quanto para o mal... depende da interpretação do sujeito. A moça atravessando a linha tênue entre a razão e a paixão precisava escolher um lado e nele ficar. Quaisquer das duas opções que ela escolhesse sairia com o coração ferido. Escolher a razão ficando ao lado de seu pai e de seu povo, ou escolher a paixão e ajudar Jasão, seu amor, a completar sua missão?! A jovem escolhe a segunda opção e paga um altíssimo preço por isso. Deixou que a paixão a guiasse à tragédia. Uma escolha arriscada, que de fato ela não saberia onde a levaria. Por fatalidade do destino ela se deu mal. Mas mesmo assim ela foi, deixou ser guiada pelo seus sentimentos mais passionais. Mas e se ela tivesse escolhido ficar quieta em seu canto, usar a cabeça e se afastar de Jasão? Em tese as coisas seriam bem melhores... o cara não conseguiria cumprir as missões de Eetes, ao mandariam ele embora e a galera em Cólquida viveria feliz para sempre... Medeia não estraçalharia seu irmão, não seria trocada, não mataria seus filhos... peraí! Nessa o Eurípedes sacaneou... ele foi um pouco exagerado, talvez o desfecho não seria tão trágico... a moça poderia viver aventuras, passaria uns perrengues aqui e ali, teria dias difíceis com tempestades em alto mar, ficaria puta as vezes por conta disso, mas no fim valeria a pena... Mas se tivesse escolhido a razão, QUE CHATO!!! Ficaria a vida inteira sob os olhos vigilantes do pai, não sairia do mesmo lugar... se casaria com um jovem coxinha, desinteressante e depois descobriria que o cara é gay (que aqui no facebook todo mundo acharia um máximo), viveria uma vida de merda... só porque preferiu seguir a razão, seguir o mais prudente. Na maioria das vezes a razão é boa, faz com que a gente não quebre muito a cara... mas isso não é viver, isso é levar as coisas. Claro que nem todo mundo tem vocação pra ser Medeia, mas deixar as paixões guiarem pode ser uma aventura e tanto. Pode ser que o desfecho de Eurípedes ocorra, mas pode ser que o poeta esteja completamente errado (e provavelmente está), e fugir de um mundo certinho e seguro seja bem melhor. Mas tem gente que acha que não... então cabe cada um escolher qual lado escolher... mas depois não pode chorar o leite derramado.
quinta-feira, 14 de março de 2013
HABEMUS PAPAM FRANCISCUM
Papa Francisco
Há tempos temos escutado por aí que a Igreja Católica precisa se renovar, pois está anos luz atrás das mudanças políticas e sociais do planeta, e cada mais fiéis vão deixando a Igreja Romana para adentrar a outras seitas religiosas que chamam mais atenção e dá aquilo que a pessoa quer. Mas entra Papa, sai Papa e a situação não muda. Acredito sinceramente que a tendência das coisas é piorar, e já piorou.
Não é pelo fato dele ser argentino (que já provoca muitas piadas), mas pela desconsideração do Colégio de Cardeais de fatores muito simples que poderiam levar a Igreja Católica para um novo caminho...
Primeiramente é desnecessário a gente ficar discutindo o conservadorismo do cardeal. Dentro da lógica hierárquica da Igreja, o que se esperar de um Cardeal senão um ultra-conservadorismo? Não! Eu sinceramente não esperava outra coisa, pois não tem nenhum nome que possa surgir no comando da Igreja que não o seja; mas certamente haviam nomes mais brandos que poderiam agregar mais para os católicos... Sim! Falo de Dom Odilo Scherer.
Escolher um Papa latino-americano? Isso já deixou de ser uma impossibilidade há muito tempo. Escolher um Papa latino-americano que não é brasileiro? Esse foi um tiro no pé. Querem salvar a Igreja Católica, recuperar os fieis... parece até piada... o Brasil, que é o maior país católico do mundo e que está em um processo de perda de adeptos desenfreado era a chave para a guinada católico. Um exemplo bem pontual, mas que no todo corrobora o que quero dizer. Aqui em Mariana-MG, alguns pesquisadores do departamento de história da Universidade Federal de Ouro Preto fizeram uma pesquisa na cidade para saber dos freqüentadores de igrejas evangélicas, que antes eram católicos, o do porque se converteram para outra religião. A grande maioria das respostas estava ligada ao desconforto que a igreja (templo) causava para aquelas pessoas (ainda mais aqui que as igrejas são imponentes). A forma das pessoas se vestirem, o jeito delas se portarem, o ritual estabelecido... tudo isso afasta os fieis da Igreja. A ideia de ter seu líder máximo cada vez mais distante também é outro fator... a imagem do Papa como o Santo Padre está perdendo violentamente a sua força. Agora imagina se o comandante da Igreja é um brasileiro? O efeito que isso acarretaria seria enorme... poderia recuperar a fé católica dos brasileiros e por consequência de outros povos que acompanham a doutrina católica e têm o Brasil como referência para isso.
A questão do Brasil ser o país que mais vem se destacando no cenário político internacional também deveria ser levado em consideração. A Argentina não é um país que hoje tem condições de se lançar para o mundo em dialogar nas grandes mesas... o Brasil sim. Um Papa brasileiro poderia ser a melhor opção para a aproximação da Igreja com os governos... o Vaticano comeu bola...
E o passado do atual Papa? Um sujeito que colaborou rigorosamente com um dos mais violentos regimes ditatoriais da América Latina... acusado de sequestro de crianças e de ser cúmplice em assassinato... bonzinho aqui... bonzinho ali?... todo padre o é... mas o cara é homofóbico, preconceituoso, retrogrado, contra os métodos anti-contraceptivos e por aí vai... esse não é o posicionamento que a Igreja deve ter hoje. O mundo espera uma reação diferente, para que a intolerância dos povos comece a desmoronar de cima para baixo... um líder que apóia a violência forma seguidores violentos.
A eleição de Francisco I, mesmo quebrando com o eurocentrismo, não trará grandes mudanças para os católicos... e arrisco a dizer que a tendência é a Igreja continuar perdendo adeptos, criando polêmicas e embora ainda com grande poder político, o seu prestígio será cada vez menor.
Veremos onde isso vai dar...
A peleja da política com o bom senso
A política venceu o bom senso... aliás, acredito que a política sequer um dia teve que travar alguma disputa com o bom senso. Mas hoje vivemos em um contexto que é difícil acreditar em algumas coisas. O que mais vem chamando nossas atenções é a “virada conservadora-cristã-xiita” que tem dominado as Assembleias legislativas por todo o país até alcançar, inacreditavelmente, a presidência da Comissão dos Diretos Humanos da Câmara dos Deputados, em Brasília. Negociar-se-á por aquelas bandas questões que há muito queremos extirpar de nossa sociedade: a violência, o preconceito, a intolerância... o tal pastor Feliciano já quer criminalizar a discriminação aos heterossexuais... é muito difícil e tortuoso em nosso país, não é verdade? Além disso, existem outras frentes que agridem ainda mais a nossa cidadania. Exemplo disso é a matéria que eu compartilho aqui neste post (clique aqui para ver a reportagem)... a bancada ruralista quer abrandar leis trabalhistas que punem agricultores que mantêm em suas propriedades pessoas que trabalham em condições semelhantes a escravidão, alegando que se deixar de pagar um ou outro benefício de direto do trabalhador é a mesma coisa, ou seja, não é justo perder a propriedade (uma das possíveis penas) por causa disso. Cada vez mais vemos o ser humano sendo massacrado por aparelhos invisíveis corroborados pelo nosso Estado. Não estou evocando nenhum tipo de moral, mas não conseguimos alcançar o estágio de civilização (atenuando o conceito, não quero discutir isso) que a humanidade um dia pensou. A liberdade, igualdade e fraternidade que os revolucionários franceses cantaram estão longe daqui... e mesmo com a velada democracia que tem se fortificado em nosso país, os fins ainda justificam os meios.
quinta-feira, 7 de março de 2013
O assassinato do simples Direito de ser Humano
Quem é ser humano e pode gritar com pulmões cheios que o é? Para nossos representantes políticos são poucos os que podem gozar de tal privilégio. A minoria dominante, que historicamente agrilhoa nossa sociedade, são os que têm seus direitos assegurados pelo Estado brasileiro. Para os olhos de alguns essa minoria forma a verdadeira maioria de nossa sociedade. Como foi muito bem exposto pelo deputado Domingos Dutra, que ao discursar pela última vez na Comissão dos Direitos Humanos disse que na verdade aquela comissão tinha como grande característica assegurar os direitos (e não privilégios) da maioria da população. Mulheres, negros, pobres, homossexuais, crianças, índios, escravos, etc., que são tratados pela maioria da população como minoria compõem o maior quadro de brasileiros. Mas aos olhos do Congresso isso não é importante. O importante não é construir um espaço de debate e ação para erradicação dos males causados por outros seres humanos, mas de alinhar bases políticas internas e externas às tribunas. A eleição de um fascista evangélico, preconceituoso, homofóbico, estelionatário, e por aí vai (o tal do Marco Feliciano), para novo presidente da CDH não é apenas um voo pra trás, mas é mais um resultado sintomático de uma situação que já há algum tempo temos discutido: “a virada reacionária”. Não precisamos voltar à discussão que o Estado é laico e a constituição cobre a todos... isso NUNCA foi posto em prática. Mas a forma que isso se deu desta vez fere todo projeto de democratização e progresso de nosso país. A ordem será imposta de forma unilateral, conservadora e moralmente religiosa, mesmo que a moralidade da religião já tenha se dissipado ao vento há muito tempo. O Parlamento brinca com o povo, e nos leva à barbárie, pois esse é o verdadeiro fim da história... uma história que não se procurava reparar, mas pagar suas dívidas... e que agora declara moratória. Sim! o CDH torna-se uma das piores excrescências de nossa política atual. É o início de um fim melancólico de um projeto que se não estava consolidado (acredito que esteja longe disso), estava encontrando o seu caminho. Agora não é o momento de lamentação, mas um tempo para avaliarmos o que está sendo feito do Brasil e agir para interromper um engessamento ainda maior de nossa situação. Não é o fim, um revés talvez, mas para que os Direitos Humanos continuem soberanos... aqueles que são contrários a tais direitos não podem jamais assumirem o poder.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
O falso cânone literário como fuga do não pertencimento
O famigerado cânone... eu acho que isso não existe mais. Em tempos de modernidade líquida e sua hiper-relativização do tempo, espaço, conceitos, valores e doutrinas está cada vez mais difícil de fazer uma listinha do que é bom e do que não é. Aliás, na era da informação em tempo real, da altíssima produção acadêmica e literária está cada vez mais difícil não seguir o tal cânone. Há poucos dias li uma reportagem dizendo que o professor do ensino básico lê pouco, e quando lê são sempre os mesmos “clássicos”, muitas vezes por obrigação que os currículos impõem ao docente e que acaba afetando os alunos que também só leem aquilo que são obrigados. O que há de novo? Quais são os grandes nomes da literatura atual? (esquerda, direita, frente, retaguarda...) Vejo hoje um enorme medo do não pertencimento, de ler as coisas erradas, ou ficar fora do grupo que acha que lê a coisa certa. Não acredito de modo algum que Dostoievski, Baudelaire e Machado de Assis não devam ser lidos, muito pelo contrário, só não entendo porque eu necessariamente tenho que achá-los melhores do que Philip K. Dick, Isaac Asimov ou Michael Crichton. A ideia de erudição fica cada vez mais restrita aos que assistem Jean Renoir, mesmo não conhecendo absolutamente nada de cinema francês da década de 1930, do que aqueles que preferem Robert Zemeckis e conhecem todas as referências do universo “De Volta Para o Futuro”. A cultura do “parecer ser” é, em tempos de conservadorismo político, tão forte que se acredita piamente que Goethe resolve os problemas de nossa contemporaneidade. Reafirmo que os grandes clássicos são chamados assim não é à toa, têm seu enorme valor dentro da história mundial, devem e merecem ser estudados. No entanto, em pleno ano de 2013 devemos ainda ter uma visão cristã para definir os cânones de nosso tempo?! Para sermos diferentes e começarmos a aprender pra que servimos no mundo hoje temos que parar de construir uma erudição vazia de sentido e inserir no cânone (se é que ele existe, eu acho que não) o que Também é bom fora do óbvio, mesmo que seja popular, afinal... nem tudo que é produzido pela e para a elite tem qualidade garantida.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
O historiador e o que é importante para a historiografia
Pesquisadora examina corpo exumado
Talvez essa afirmação tenha lá o seu grande peso de verdade, mas é só isso?
Nós historiadores hoje estamos criando uma gigantesca massa crítica que não critica absolutamente nada. Crítica aqui eu estou considerando a capacidade de leitura e análise de uma determinada questão a ser debatida. Temos cada vez a tendência enfadonha de classificar aquilo que é ou não é relevante para a historiografia. A partir daí construímos um cânone imaginário para um monte de tema que classificamos como politicamente elegante de ser estudado e aquilo que é perda de tempo, e o grande crime... perda de dinheiro!
Hoje foi divulgada uma pesquisa que está dividindo a opinião dos historiadores. Uma pesquisadora da USP, Valdirene do Carmo Ambiel, desenvolveu nos últimos três anos uma investigação que convergiu estudos históricos, arqueológicos e médicos ao exumar os corpos do ex-Imperador do Brasil, Dom Pedro I, e de suas duas esposas, as ex-Imperatrizes D. Leopoldina e D. Amélia. (a matéria saiu no portal do Estadão). Embora a matéria, e a entrevista com a pesquisadora apontem para descobertas pouco conclusivas em alguns aspectos, em outros é possível derrubar algumas teses há muito tempo difundidas pela historiografia, tal como a possível causa da morte de d. Leopoldina (veja a matéria para compreender melhor o caso).
Qual é o meu ponto?
Há uma série de pesquisadores sérios (que eu conheço) que viram com bons olhos para esse inédito método de pesquisa, bem como há outros pesquisadores que também são sérios (e que eu também conheço) que consideram a pesquisa uma babaquice e um enorme desperdício de dinheiro. Agora eu não entendo porque a pesquisa é realmente tão insignificante. Será porque se trata de um tipo de investigação que está muito mais interessada em criar novas possibilidades de leitura, e até mesmo de divulgação da disciplina, ou porque foge dos padrões canônicos acadêmicos positivistas de pesquisa historiográfica?
Concordo que não podemos festejar ainda o resultado dessa pesquisa, que tem seus pontos falhos (me diga alguém que já realizou uma pesquisa historiográfica sem NENHUM furo), mas nós sequer lemos o resultado. Desqualificar um trabalho como esse é apenas propagar o conservadorismo que faz com que o historiador seja olhada pela sociedade como um profissional fechado em seu próprio mundo (espera aí, a sociedade conhece os historiadores), ou estamos promovendo o debate sobre o que é História e o que não é?
Acredito que nós historiadores temos que começar a reaprender a olhar para o tempo. Simplesmente jogar uma pesquisa no lixo em prol a uma “história a contrapelo” é desconsiderar muito trabalho e grandes possibilidades para a própria reinvenção da disciplina. Temos que ser mais críticos conosco mesmo, e promover um debate sério acerca daquilo que nos propomos a fazer. A História está cada vez mais está perdendo sentido, e são os próprios historiadores, que não confiam em seus pares, os principais responsáveis para isso.
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