Em ano de eleições ser aficionado por futebol se torna, imediatamente, um crime hediondo. Isso se dá, principalmente, por ser ano de Copa do Mundo. Muitos se inflamam, compram álbuns de figurinhas, pregam a tabela na porta do guarda-roupa... se tornam os mais ativos comentaristas do esporte bretão. É claro que isso é intensificado de quatro em quatro anos, mas já há muito nossas quartas e domingos são reservados para que em 2 duas horas se possa ter uma miscelânea de sentimentos assistindo 22 pessoas correndo atrás de uma bola tentando coloca-la dentro de retângulo consideravelmente grande. Mas isso é uma cretinice!! É absurdo que frente a um cenário de desmonte das instituições públicas, constantes casos de corrupção no governo, de golpes em prática e retorno do país aos piores índices econômicos (embora o Planalto diga o contrário), se preocupar com que jogador foi comprado ou vendido por um clube é o mais nojento ato de alienação. Estamos todos perfeitamente aptos a falar sobre música, artes plásticas, literatura, cinema, etc, somos críticos por natureza e definição. Afinal, deixar ligado o Spotify durante uma sessão da Câmara dos Deputados enquanto leio as ótimas resenhas do Omelete é muito mais politizado do que comemorar um gol do Palmeiras, isso não! Sabemos que as redes sociais são, e o Facebook encabeça isso de longe, os melhores lugares para destacar a incompatibilidade ideológica de ser militante político e torcedor de futebol... rende muitos “likes”! Incontáveis vezes já li posts que criticavam profundamente não o esporte, mas aqueles que o amam. Na visão daqueles que não gostam, de fato, o futebol é o “ópio do povo”... acreditam que há uma mágica que cega as pessoas e não as permitem que vejam as mazelas do mundo. Como se o futebol fosse o culpado disso. O esporte, esso sim, faz parte disso. Os estádios brasileiros, que já foram os maiores e mais cheios do mundo, democráticos, que ninguém se importava se o cara do seu lado na “geral” era rico ou pobre, preto ou branco, hétero ou homossexual... ali todo mundo tinha um só coração. Com as transformações do país, com as novas políticas, novos públicos, novos estádios o povo pobre, que sempre foi a maioria, está cada vez mais afastado da vida do futebol. Ingressos caros, obrigatoriedades em ser sócio torcedor, uniformes inacessíveis... isso é imagem de um cenário político grave. O esporte, esse não tem nada a ver com isso. O torcedor, muito menos. Quem dirá que o senhor com essa camisa improvisado do Corinthians realmente não está preocupado com os rumos que a sua vida está tomando e não entenda que isso é resultado de políticas públicas que não o inclui. Mas o amor que ele tem pelo Timão não muda, não faz dele uma pessoa ruim e desinteressada. Como tudo nesse mundo, o futebol (não o esporte, mas o seu gerenciamento) é um negócio e que dá muito dinheiro. Mas assim como em tudo nessa vida, cada vez mais menos pessoas podem usufruir disso da forma que gostaria. Comprar uma camisa de R$250? Não é a camisa que fará a diferença. Voltar-se fervorosamente contra o futebol? Muito menos... estão matando o futebol, isso já é sabido... mas, quem jogará a pá de cal?
Rádio Reverberação
sábado, 13 de janeiro de 2018
sexta-feira, 7 de abril de 2017
E quem ganha a guerra?
Imagem fornecida pela Marinha norte-americana mostra lançamento de míssil
a partir destroyer americano em ataque a base aérea síria
a partir destroyer americano em ataque a base aérea síria
No colégio ao estudar História aprendi que no percurso da humanidade o conflito bélico sempre teve significativa presença. As grandes conquistas, os maiores homens, as incríveis expansões foram frutos do desespero, da violência e de sangue. Fosse em nome de Deus ou da Nação, sobrepujar o inimigo apresentava-se como o caminho mais rápido para a glória. Os dias de paz tornavam-se engodo. Aumento da população, necessidade de abastecimento, possibilidade do fim do acúmulo, falta de espaço, etc. A paz não é um bom negócio. A paz deixa o ser humano invisível. É difícil saber o nome daquele vizinho que fica deboas, acorda cedo e vai trabalhar, passa na padaria antes de ir para casa e quando chega toda seu banho, vai jantar assistindo um filme ou uma série sem causar grande alarde. Talvez nem saibamos o nome desse vizinho. Mas quem nunca esquecerá do “Seu Asteriovaldo” (nome fictício), aquele que furava a bola das crianças quando caia em seu quintal, que soltava o cachorro para afastar o vendedor de enciclopédia, que ficava xingando o outro vizinho que colocava Raça Negra alto para fazer o faxinão de sábado e fiscalizava a vida de todo mundo naquele pedaço de rua? Esse a gente nunca esquece. Esse entra para a História! Afinal de contas, quem não gosta de mandar indireta “pras inimiga” no facebook? Há alguns dias eu estava na praça da cidade arrebatando um taio, quando começou uma briga de adolescente ao lado do coreto. A coisa parece que estava feia, pois chamou muita atenção, sobretudo de um pessoal que estava sentado ao meu lado, em que um dos membros abriu um sorriso de todo tamanho e disse algo como: “Nossa!! Vamos lá gente... isso é a melhor coisa”. A violência diverte! Em maior escala, ela faz o mundo girar. Síria, EUA e Rússia estão abrindo um novo capítulo da história sem fim. A barbárie deve ser combatida com firmeza nas ações. Custe as vidas que custar! Foram apenas os 100 primeiros mortos por gás, só 50 mísseis lançados! Céu e Inferno fazem parte de um conjunto habitacional popular. Muros baixos e casas semelhantes demais para distinguirmos só de olhar.
quarta-feira, 23 de março de 2016
Nos escombros da política todos se soterram
Foto: Ricardo Moraes, Reuters - (25/10/2014)
A ferida político-social escancarada no Brasil após a vitória legal e democrática da presidenta Dilma Rousseff pode ser fechada? Os posicionamentos políticos dos cidadãos estão se tornando cada vez mais intensos e falsamente polarizados sem ao menos termos a real dimensão desses polos... e velhos conceitos estão sendo empregados com convicção e o habitual esvaziamento de sentido: direita e esquerda; golpistas e legalistas; tucanos e petistas (parece que só existem dois partidos no Brasil), etc. Discursos de ódio têm tomado as ruas, os bares, os concertos de heavy metal com muita naturalidade... espaços públicos onde a ofensa onde até pouco tempo existia mas era contida e envergonhada, agora é mais explicita e corajosa... Há também os arautos do liberdade, paladinos da democracia que para acreditarem demais nas instituições e acabam por defender o indefensável... convenhamos é necessário. O ensaísta uruguaio Hugo Achugar já apontou que as gerações pós Ditadura Militar (ele fala sobre o caso de nossos vizinhos, mas arrisco dizer que não somos diferentes), ao contrário da geração pré Ditadura acreditam muito mais na real possibilidade de seu retorno, do que os mais velhos acreditam um dia ter uma ditadura daquele porte. Em hipótese alguma acredito no retorno aos tempos sombrios, mas ao ver a tentativa de golpe jurídico-parlamentar em voga é de se imaginar que nosso futuro será duríssimo. Estou lendo e ouvindo muito sobre o acovardamento do STF, que tem força para julgar uns e não outros. Não acho que o STF esteja atuando de forma covarde – de maneira alguma -, acredito que esteja agindo de má fé. O Supremo tem condições de garantir o funcionamento do governo ao mesmo tempo que pode deixar a Lava-Jato continuar, desde que seja conduzida de maneira que não provoque incêndios e que seja de fato justa. Mas enfim, do juiz Sérgio Moro, o passe-livre (esse tem) do deputado Eduardo Cunha, bem como o coquetel molotov chamado PSDB têm impossibilitado o funcionamento do já previamente complicado governo de Dilma. Incitado pela Globo e outros grandes meios de comunicação a onda fascista tirou as camisas verdes (agora com detalhes em amarelo) do armário. Atualmente pode ser extremamente perigoso sair de camisa vermelha na rua e levar uma pedrada na nuca... é preciso escolher bem o que falar e em que lugar. As manifestações populares (algumas nem tão populares assim) têm gerado uma tensão que ao explodir pode instaurar um estado de violência perigosíssimo. As famílias que em 2015 até conseguiram almoçar juntas no natal, esse ano pode ser que não consigam... e depois? E se Dilma cair? A velada paz brasileira voltará? Independentemente do que escolher... quando o muro for demolido os escombros cairão dos dois lados.
segunda-feira, 21 de março de 2016
Vermelho é a cor mais perigosa
Assim como tantas outras coisas, uma simples cor pode, em determinada situação, se tornar um vigoroso símbolo. As cores da bandeira nacional, de um estilo musical, da sinalização de trânsito, do escudo do time do coração, etc... as cores são mais do que cores. Com elas pintamos o mundo, de tons variados de acordo com nosso estado de espíritos e paixões. Em tempos sombrios um feixe de luz é o suficiente para iluminar uma câmara escura e projetar na parede imagens que não dão a noção do que está lá fora. Mas afinal, o que está lá fora? Nas disputas pelas cores em nossa atual e insana guerra política o verde e o amarelo, motivos de orgulho esportivos e nacionalismo seletivo, é diariamente banalizado ao ser mobilizado pelo um enorme grupo de pessoas que ao se posicionarem em um perigoso lado político usam as cores como um escudo da moral, dos bons costumes e da idoneidade. Em contraposição o vermelho, a cor de tudo que há de mau no mundo, o pomo da discórdia a ponto de até bebês (sim, crianças... os malvados bebês de Rosemary) serem hostilizadas por que suas mamães quiseram enfeitá-las com os desenhos da Minnie e Homem-de-Ferro (ambos terríveis comunistas). O vermelho que traz em si mesmo todo o colorido, a cor do nosso sangue, do desejo e da paixão, a mais sedutora e que desperta no ser humano as mais profundas idealizações se torna ao mesmo tempo um sinal de perigo ao que ousam ostentá-lo em praça pública. A culpa é do vermelho, que ousou estampar a bandeira de um (de vários, na verdade) partido fundado por trabalhadores e que um dia ameaçou a ordem e o progresso instaurado pelos democráticos verde e amarelo. O outono chegou para anunciar o iminente e gélido inverno, que pode demorar décadas para passar... e o quente e aconchegante vermelho, o mesmo que poderia nos trazer um alento será o mesmo imã do medo e da violência. Pobre vermelho... não se preocupe, não deixarei você mofar no fundo do armário.
quarta-feira, 1 de julho de 2015
A polêmica PEC171/1993 - Redução da Maioridade Penal
O problema da redução da maioridade penal é muito mais complexo do que simplesmente comprarmos o argumento da ditadura em que a máxima do bandido bom é bandido morto. Reduzir a maioridade penal não diminui o crime. O Estado altamente violento, como é o Brasil, não assegura políticas de segurança pública capazes de coibir a criminalidade sem apelar para o rigor da punição. No discurso do deputado Ivan Valente na sessão da câmara na madrugada de ontem pra hoje durante os encaminhamentos para a votação ele disse algo, pra mim, emblemático, algo do tipo: Um Estado que não acolhe e não protege o cidadão não tem a capacidade de punir. Essa é a verdadeira questão, e está longe de passar por demagogia. Demagogia é o Nilson Leitão subir no parlatório, iniciar seu discurso pró-moralidade e dizer que a questão da PEC171 não é partidária e terminar dizendo que a culpa é do PT (chavão padrão), sem contar o papo de que “não gostaríamos de estar aqui votando a redução da maioridade penal, mas em nome da família brasileira voto sim!!” isso é demagogia.
O deputado Eduardo Cunha colocou isso em pauta na Câmara por questões partidárias sim! O que não é saudável para o debate complexo como esse. A primeira derrubada da PEC171 deveria reabrir as discussões para a reforma do Estatuto da Criança e do Adolescente, repensar as formas de inclusão dos jovens e adolescentes nas escolas e centros educativos, prevenir que entrem na marginalidade a partir de medidas sócio-inclusivas. Os que são, porventura, recolhidos às casas de reabilitação devem passar por um processo mais moderno de re-inserção na sociedade. A Fundação Casa não pode ser um mini-presídio. Essa questão é outro problema. Há de se discutir o sistema carcerário, que é superlotado e o sistema judiciário não dá conta (pelo inchaço do código penal) de controlar sua comunidade carcerária. Encher de adolescente em presídios vai agravar ainda mais o problema. E depois que saírem da cadeia? Qual é o acompanhamento do Estado? Nenhum!! o Estado pune e abandona!! A sociedade o que faz? Simplesmente o que sempre fez... finge que não é com ela. A questão da criminalidade é um problema sério, complexo e constante, e que não pode ser debatido pela sociedade civil apenas quando lhe convém. É perigoso, também, usar da representatividade e deixar para um Congresso conservador, raivoso e vingativo decidir tal questão. Ontem na sessão da câmara isso ficou claro. O legislador não pode votar por mera subjetividade e paixão. A “Casa do Povo” deve servir ao povo, e o que os 303 que votaram “sim” ontem, certamente não estão. Reduzir não resolve. É necessário por em prática que se pede há anos... o Brasil precisa de uma reforma geral: política, educacional, penal, etc.
Cadeia não é exemplo... se fosse não teríamos 70% de reincidência. Como foi lembrado pela própria deputada Jandira Feghali ontem... não é votar contra a reclusão, mas repensar e adequar as formas de reclusão. Não sou contra em prender menor infrator, essa não é a questão real. Mas sou contra métodos arcaicos de punição. Nosso código penal é de 1941. Ele é falho com adulto e será desumano com adolescentes. Os centros reformatórios precisam ser um ambiente sócio-educativo e de re-inserção na sociedade. Não um centro de tortura e medo, que não tem interesse em "salvar" ninguém. O moleque é preso... cumpre pena em presídio... não tem nenhum acompanhamento... é solto (se for solto, porque há milhares de casos de presos que já cumpriram suas penas, mas que ainda se encontram encarcerados)... completamente desamparados pelo Estado e pela sociedade civil... o que acontece?? entra pra criminalidade novamente... de quem é a culpa? só dele?
Fala-se em cumprimento da justiça. Há uma tênue linha entre justiça e vingança. Justiça é talvez um dos princípios básicos de um estado democrático de direito. A justiça deve ser realizada em todos os âmbitos... justiça penal, social, e, porque não, intelectual. Ninguém em sã consciência ignora a dor das famílias que perdem seus entes queridos. Os debates ontem na câmara foram muito emocionados e inflamados. A deputada Keiko Ota inclusive estava vestindo uma camiseta de seu filho, assassinado em 1997 por dois adultos, sendo um policial (arauto da justiça) e defendia com “”lágrimas”” a redução da maioridade penal. Silas Freire ainda teve a coragem de minimizar (e quase desqualificar) a participação de um adulto em um estupro coletivo, no Piauí, porque havia a participação de dois menores, acusados pelo deputado de serem os mentores da ação e o adulto um “mero” cooptado. Critiquei a postura do deputado no Twitter e um de seus defensores me chamou de “PORCO PEDÓFILO”. A deputada Benedita da Silva, estuprada aos 7 anos sem qualquer direito de defesa, vítima também de uma sociedade injusta, defendia o contrário.
Solidarizo-me sim com a dor das duas e de tantas outras vítimas por aí. Não há um desmerecimento em relação à dor das famílias, pelo contrário, não há humanidade ao virarmos as costas para essa realidade. O que não podemos ser ingênuos e desconsiderar que essas “comoções” são seletivas. Todos os dias casos de violência são registrados, e por quem vestimos camisetas brancas e saímos nas ruas pedindo paz? Certamente não é para todo mundo. Porque criança favelada quando é morta por policial, a primeira coisa que vem em nossa cabeça é: “se foi morto é porque era culpado”! Essas conclusões não podem ser feitas de maneira superficial. Concordo que nossos sistemas estão falidos, isso não há a menor sombra de dúvida. E é por isso a necessidade de uma reforma ampla e geral. Emendas constitucionais substitutivas... emendas aglutinativas que regridem os termos na constituição (e por isso são inconstitucionais) não devem ser, nesse caso grave e de interesse público generalizado, os meios últimos para a reforma. Estamos em meio a uma grande discussão sobre a PL6840/2013. Quais são os moldes para a escola e, principalmente, para o Ensino Médio. De que maneira os currículos devem ser reformulados, quais são os reais impactos da escola integral, como associais o espaço escolar com a vida social. Pensar uma nova escola e novos espaços de sociabilidade são as maneiras de se obter justiça. E isso tem que ser intimamente ligado a uma reforma do ECA e das medidas de reclusão de jovens infratores.
Encarcerando por vingança e se sensibilizar seletivamente pela dor de famílias que perdem pessoas que amam não resolve. Não há ironia na questão. Claro que essa ideia de que os jovens não podem ser presos e agem de forma criminosa alegando isso é revoltante. Compreendo esse tipo de indignação e não tiro o mérito disso. Não obstante, nossa ação civil não pode ser baseada nesse tipo de paixão. Em hipótese alguma desqualifico seus argumentos, eles são importantes para a promoção do debate, mas há muitos pontos que são oprimidos e que não podemos desprezar. Desculpe-me por essa postagem longa, confesso que não tenho muito mais para acrescentar, mas gostaria de deixar claro que não estou desprezando sentimento de ninguém. Eu como historiador e educador tenho um compromisso ético com a humanidade, e não me sentiria confortável convivendo comigo mesmo desprezando essa postura.
Desculpe-me se falei alguma besteira, mas é isso que eu penso hoje.
terça-feira, 10 de março de 2015
O xingamento à Dilma é um tapa na cara de toda mulher
Dilma, no dia 1 de março no Rio. / MARIO TAMA (GETTY IMAGES)
Todos nós temos o direito de indignarmos pelos desmazelos do governo, denúncias de corrupção, medidas impopulares com interesses partidários, etc. Mas nossas manifestações devem ser feitas a partir de uma série de dados, leitura e compreensão mínima do cenário político que vivemos. As manifestações desrespeitosas contra a presidenta Dilma no último domingo, articulada pela classe média de apartamento (e de casa também), tem mostrado que o conhecimento (talvez “educação” seja melhor) não é uma máxima verdadeira. No dia internacional da mulher, uma presidenta, mulher que venceu toda uma sociedade machista e patriarcal e se elegeu de forma democrática ao cargo de Chefe do Executivo Nacional, ao falar com a Nação, ser xingada aos berros por milhões de pessoas de “vaca”, “vagabunda”, “piranha”, e por aí vai é uma ignomínia. Ali não estava sendo desrespeitada a nossa Chefe de Governo e de Estado, estava sendo xingada uma mulher, um ser humano. Há poucos dias me manifestai aqui nas redes sociais dizendo que nunca fomos tão republicanos, mas a custa de quê? O avanço democrático gera o seu próprio antagonista. Estamos ainda hoje reproduzindo uma cultura política identificada por Oliveira Viana na década de 1930 onde ele identificava que no Brasil o povo não sabe diferenciar o cargo público daquele que o ocupa? Na minha Timeline hoje tinha muita gente (amigos de infância sobretudo) que vociferavam contra a Dilma... mulheres (sim, mulheres) indignadas com o pronunciamento da presidenta (não tenho certeza se assistiram, deveriam estar batendo panela na varanda de suas casas) dizendo que ela não as representa. Outras diziam que era LAVAGEM CEREBRAL (pessoal assistindo muito o filme Laranja Mecânica) e que aquela “filha da puta” não deveria estar ali. Isso não é apenas histeria, desespero, revanchismo e ignorância... é a mostra que nossa sociedade pouco aprendeu com as desventuras da história de nosso país, principalmente das mulheres que o compõe. Pouco se aprende com a violência diária contra as mães de família em casa, meninas indo para a escola, mulheres em seus ambientes de trabalhos, travestis e transexuais sofrendo para ter uma vida digna. Cada xingo nas varandas e sacadas não foi direcionado para a Dilma apenas, mas como irrefutabilidade do machismo, foi um tapa em cada mulher no dia que simboliza a luta pela igualdade dos gêneros. Um retrocesso... uma pena!
quinta-feira, 5 de março de 2015
Nunca fomos tão republicanos
Montagem: Brasil 247
O noticiário político no Brasil nos últimos tempos tem ficado cada vez mais em evidência. Os intensos debates e disputas políticas, sobretudo as partidárias, revelam que nosso país está atingindo um patamar de seu período democrático em que múltiplas vozes de fato se fazem ouvir. No entanto, a coabitação de vozes não significa o entendimento entre elas. É saudável para a esfera pública que grupos distintos (ou não tão distintos assim) ponham suas cartas na mesa e estimulem o jogo. A instauração da “desordem” que tem por fim a contestação de possíveis discursos unilaterais, que podem levar ao autoritarismo, é um movimento que naturalmente faz valer as possibilidades de transformações do tempo e da política. Se temos um governo de situação forte é bom para o país que também tenhamos uma oposição igualmente forte. O que não podemos confundir, e usualmente confundimos, é que tais não devem se degladiar por tomada de poder movido por interesses meramente particulares em detrimento do bem do povo. Ser oposição não significa ser necessariamente o tempo todo contra, nem ser situação significa aceitar passivelmente quais atos impopulares. A sangrenta disputa entre Planalto x Congresso demonstra que as esferas que comandam o país travaram uma guerra interna que ultrapassa os interesses do país e colocam em xeque o processo de consolidação de nosso republicanismo democrático. Mesmo que os motivos sejam questionáveis, o resultado apertado das eleições presidenciais de 2014 é um indicativo de mudanças na cultura política brasileira. Não obstante, as manifestações pró-impeachment da presidenta Dilma é um ato meramente revanchista, irracional, e antidemocrático. É a ridicularização e infantilização de nossas próprias posturas políticas, que em boa parte da população contrária ao atual governo é guiada apenas por desinformações e mêmes compartilhados nas redes sociais. Hoje a cada 1 passo dado “para frente”, 10 são dados “para trás”. As novas oligarquias (as bancadas evangélicas, ruralistas, conservadoras, etc.), que são cada vez maiores, impedem que os nossos direitos sejam assegurados e se baseiam por interesses econômicos e ideológicos (muito questionáveis). Reforço a ideia que estamos nos tornando cada vez mais republicanos, mas sabemos ser de fato republicanos? A “desordem” democrática está se tornando “bagunça” escandalosa? A “divisão” do Brasil é boa, faz parte do amadurecimento político... mas quando nos jogamos uns contra os outros sem fundo minimamente racionalizável (não entrarei na discussão sobre sensibilidades
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