Rádio Reverberação

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Tuitando uma novela: a solitária interação nas redes sociais


Meu post é baseado em uma matéria que eu li mais cedo no Observatório da Imprensa, que me fez pensar um pouco. Mais uma vez eu venho falar da questão dos avanços tecnológicos que surgem para o bem e para o mal. Na reportagem, o autor comenta a questão de como hoje o indivíduo criou o hábito de usar as redes sociais ao mesmo tempo em que assiste televisão, e junta uma coisa com a outra. Venho percebendo muito em minha vida, principalmente depois que eu passei a morar sozinho, e a internet passou a ser um dos meios de interação com o mundo exterior.

Televisão e internet é um dos principais passatempos do solteiro, principalmente em dias de semana, em que as festas ficam por conta dos desocupados. Essas duas plataformas – TV e net – se juntam, sobretudo, durante a noite em que a carga de trabalho diminui bastante e podemos cultivar o ócio de maneira mais reconfortante. Antes do Facebook e do Twitter, aquelas duas plataformas era separadas uma da outra. Enquanto se estava pirando na internet, principalmente no MSN, não se ficava muito preocupado muito com ver TV, e vice-versa. Hoje a graça é interagir com as duas.

Uma das coisas que proporciona isso é a facilidade de locomoção do computador. Hoje a tendência é cada um ter ser próprio computador, seu laptop que pode ser levado para todos os lugares. Quando eu morava na Calangos tinha o meu enorme desktop na minha mesa, que ficava lá no quarto, hoje com a minha pequena casinha não tenho mais aquela mostruosidade, e a TV fica aqui do meu lado. Ao assistir alguma programação é quase que inevitável os comentários na internet. Pela velocidade da coisa o Twitter é a rede social que mais se utiliza. Com as hastags se pode conectar com outras milhares de pessoas ao redor do mundo que está comentando a mesma coisa que você. Segunda-feira foi incrível a velocidade que o Top Tweets do Brasil teve a hastag #QueReiSouEu quando a novela reestreou no Canal Viva, e eu postei isso antes de entrar no TT. O diálogo com a programação ao vivo também ficou bem mais direto, principalmente a programação esportiva. Alguns canais são precários (sente só termo) e AINDA utilizam o Email (que há cinco ou dez anos era o fino da bola) como forma de interagir com o telespectador, mas outras usam o Facebook, o Twitter e, no caso particular da ESPN, um mural no próprio site do canal para que aqueles que estão assistindo ao vivo a programação possa enviar suas perguntas e comentários, que são lidos no ar... e eu já tive a minha lida, é bem legal. O “Você Decide” e as ligações 0900 já são coisas pré-históricas.

Essa interatividade eu acho muito legal e interessante. Ela dá uma sensação de inclusão, de que você faz parte de um mundo que compartilha ideias, que tem sensações similares, e faz você se identificar com aquilo. Mas ao mesmo tempo gera um campo de força um pouco solitário. O ato de assistir televisão é particularmente individual, por mais que se possa tornar uma sessão de filme um evento social, a experiência que você tira daquilo é extremamente particular, o que se agrava quando falamos do computador. A HP tem um interessante slogan: “o computador nunca foi tão pessoal”, e é verdade. Recentemente eu estava na Calangos, e na sala de casa todos vendo TV e cada um com o seu computador no colo, e o que é mais bizarro um mandando mensagem para o outro no Facebook. Então, por mais que as redes sociais possibilitem essa interação ela é mais fictícia do que real. Hoje tenho cerca de 250 “amigos” no Facebook, e garanto que pouco mais de 10% me cumprimentam na rua. O que se faz no computador fica no computador, menos as fotos da Carolina Dieckmann (foi mal a piada).

Nossos olhos estão fixos em múltiplas telas ao mesmo tempo, televisão, computador, celular, do que seja. Interagimos com o mundo constantemente através das redes sociais, mas experimentamos pouco a realidade. As redes de informações causam-nos uma sensação de pertencimento, de inclusão, mas não passa de uma ilusão controlada por nós mesmos, que por um lado trás um conforto, mas de outro aumenta a solidão frente à tecnologia.



quinta-feira, 10 de maio de 2012

Pra que lado foi a Direita?

Geraldinho, Serrinha e Aécinho


Qual é o efetivo problema em ser de direita? A princípio nenhum. Bem como sabemos na teoria os sistemas políticos, as medidas econômicas, as ideologias quaisquer sempre têm lá a sua lógica. Ser direita não é todo ruim... ruim é ser de uma direita rasa. Lembro-me um caso curioso relacionado as eleições para o Centro Acadêmicos de História aqui na UFOP lá pelos idos de 2007 em que haviam duas chapas disputando, o que se tornou raríssimos nos últimos tempos, uma de “esquerda”, e outra de extrema direita. Enquanto os primeiros estavam preocupados com o espaço de representação na Universidade, melhoria das condições do ensino dentro do Instituto, de uma otimização da grade curricular; os segundo não propunham nada, estavam muito mais preocupados em fazer com que Coca-cola voltasse a ser vendida na cantina do ICHS, proibida pelo falecido diretor Prof. Ivan Antônio de Almeida, por questões que envolviam a saúde dos alunos. O papel da “oposição” ali era apenas o de tumultuar, o que não é muito diferente do que está acontecendo com a nossa política nacional atualmente.

Do que fizeram da direita brasileira? Até a entrada dos anos 2000 era ela quem comandava o país, os grandes nomes do poder vinham do PSDB, do antigo PFL (hoje DEM), do PP e por aí vai. Fernando Henrique Cardoso era amado e idolatrado, a dupla Covas e Alckmin era o exemplo de governabilidade, enquanto o PT (cabeça da oposição) era o grupo comunista que ao tomar o poder instauraria a ditadura de esquerda em nosso país, me lembro direitinho o meu pai me dizendo isso quando era mais novo. Coitado, acabou virando um péssimo doutrinador. Dez anos depois da eleição do Lula para a presidência da República o cenário é abismalmente o inverso. O PT assumiu o poder e soube muito bem controlar a situação, promover melhorias efetivas na questão social (AINDA FALTA UM MUNDO PRA SER RESOLVIDO), não instaurou a ditadura esperada pelo meu pai e transformou a direita inabalável em um bando de corneteiros perdidos. Como disse Valdo Cruz: “dá dó”.

Roberto Freire vacilão

Essa semana teve o patético episódio do deputado Roberto Freire (PPS-SP), que caiu na pegadinha do site humorístico G17, em que afirmava que a presidenta Dilma teria mandado o Banco Central imprimir nas cédulas do Real a frase “Lula Seja Louvado”. O deputado biruta então publicou em seu Twitter: “Isso é uma ignomínia! Dilma pede e B. C coloca em circulação notas com a frase 'Lula seja louvado'". É muita falta de atenção pra uma pessoa só. Agora tem a questão da mudança das regras para caderneta de poupança, dos cortes de juros da Caixa Econômica, que será seguido pelo Banco do Brasil. A direita defende o corte de juros para aqueles que investem em aplicações financeiras, tais como fundos de investimento, e não para a Caderneta, ou seja, a minoria que investe teria mais vantagens do que a maioria que poupa o ser suado dinheirinho.

Ainda tem outros casos que demandariam mais páginas de discussão, como a questão Demóstenes/VEJA, o absurdo código florestal, e a articulação direita/religiosos contra a acertadíssima decisão do Superior Tribunal Federal com relação à descriminalização da interrupção terapêutica da gestação de fetos anencéfalos. A direita, principalmente o bizarro Reinaldo Azevedo, que de tão reacionário deveriam criar uma nova categoria para encaixá-lo, chegou a chamar o STF de “Cristofóbico”... o que é isso?

A direita brasileira está completamente perdida. Não me considero uma pessoa completamente de esquerda, pelo contrário, acredito ser alguém ponderado. Não saio por aí levantando bandeiras, mas dê a César o que é de César. O governo petista não é perfeito. Não podemos fechar os olhos para a falta de investimento na educação, na saúde, na infraestrutura de nossas cidades, sobretudo as de saneamento básico (Tá tudo péssimo!), mas em comparação a outros governos já melhorou bastante, e espero que a tendência continue. Os partidos de oposição já não têm mais condições de reger nada. A mesma corja que está na política há anos no poder enegrecendo a democracia que foi conquistada à duras penas.

Só nos resta esperar qual será a próxima peripécia da direita, para a nossa alegria, rs!


quarta-feira, 9 de maio de 2012

Um crime do passado que não passa: a escravidão no Brasil contemporâneo


Um fato extremamente lamentável e está na pauta do dia: o trabalho escravo no Brasil. Hoje li uma matéria na coluna do Roldão Arruda, no site d’O Estadão, que fiquei sinceramente preocupado. Como é possível a sexta economia mundial ainda se submeter a esse tipo de excrescência em pleno ano de 2012? Parece figura repetida eu sempre chamar a atenção para as contradições que nosso país vive frente ao crescimento econômico. É importante trabalharmos com o otimismo frente a esse aquecimento, mas com toda certeza não podemos nos ufanar do Brasil por isso.

A pujança econômica que o Brasil vem desenvolvendo não é exatamente um fator de orgulho, pois ele afeta uma camada ainda bem pequena da população, e socialmente não tem surtido grandes efeitos, afinal, cada vez mais os bancos têm lucrado rios de dinheiro, as grandes corporações dominam o mercado, mas apenas uma pequena parte do que é arrecadado pelo Estado é direcionado à educação, à saúde, à moradia, e a capacitação bem como ao direcionamento para o mercado de trabalho. E justamente é esse mercado de trabalho que parece estar cada vez mais desregulado, ou regulado por vias perversas, que devem ser duramente combatidas.

A extrema direta nacional, a bancada ruralista e os grandes capitalistas de nosso país se unem para criar mecanismos para aumentar a produtividade e os lucros diminuindo, em contrapartida, os grandes investimentos. Não é à toa que o novo Código Florestal seja um produto bizarro de um grupo que ignora completamente o bom senso a favor de apenas interesses localizados. O meio ambiente, assim como o ser humano é deixado de lado para que o mercado continue se autorregulando, bem como os grandes liberais pregam. A custa de quê?

Trabalhadora de oficina das Confecções Zara em situação análoga à escravidão

Os dados de Arruda são alarmantes. Entre os anos de 2002 e 2011 cerca de 37.780 brasileiros foram libertados de trabalhos compulsórios análogos à da escravidão. É uma quantidade abismal. Nenhum ser humano deveria ser "libertado", pois nenhum ser humano deveria se tornar cativo. Se no Brasil pré 1888 a escravidão já era uma prática completamente anti-moderna, hoje fere qualquer tipo de ideologia ou condição humana. Embora a zona rural seja mais afetada com esse tipo de crime, a zona urbana também viola os direitos do Homem, ou devemos nos esquecer do caso de bolivianos que trabalham compulsoriamente nem nenhuma remuneração em confecções de roupas em São Paulo para que nós fiquemos na moda?

O que se nota em ambiente de trabalhos que comportam esses homens e mulheres são as péssimas condições de higiene, me má alimentação, com excessiva jornada de trabalho, sem carteira assinada, e até mesmo às vezes são pagos com drogas, como podemos ver no blog de Rômulo Martins, em que trabalhadores do corte de cana, na cidade de Araraquara-SP, eram pagos com pedras de crack. A dignidade do ser humano foi cortada junto com a cana.

E o que falar quando mantém seus “empregados” nessas condições são homens públicos, políticos que deveriam lutar para o bem-estar da população, mas ao invés disso estão apenas motivados pela ganância e amparados pela impunidade? Exemplo disso é o João Batista de Jesus Ribeiro (PR-TO), que está sendo investigado por suposta prática de crime de submissão a trabalho escravo contra trabalhadores, em uma de suas fazendas no Pará, estado que tem o mais número de incidências de escravidão no Brasil.

Nós cidadãos, homens e mulheres, brasileiros livres devemos lutar para que isso seja uma realidade para todos. A democracia não pode ser apenas uma palavra bonita para ser entoada a torto e a direito em nossa velha Constituição. Enquanto os grandes criminosos não serem punidos, enquanto a justiça não fizer a sua parte ainda continuaremos lendo e ouvindo notícias tristes como essa. Devemos debater mais sobre essa questão, e denunciar acima de tudo.

Para que nos orgulhemos definitivamente de nosso país temos que contribuir para a sua limpeza.


terça-feira, 8 de maio de 2012

No ar o blog da Revista Eletrônica Cadernos de História




Ontem entrou no ar o blog da Revista Eletrônica Cadernos de História, uma publicação do corpo discente do departamento de História da UFOP, na qual eu sou um dos conselheiros editoriais. Segue abaixo a mensagem de inauguração do blog. Não deixe de acompanhá-lo, muitas novidades virão por aí.

*   *   *

Olá, desbravadores do tempo!


Os Departamentos de História das instituições de ensino por vezes têm grandes dificuldades em desenvolver estratégias para aproximar a produção historiográfica de um público mais amplo, e não somente dos historiadores. O conhecimento é um direito de todos, sobretudo aquele relacionado ao passado, formador de identidades, mitologias e culturas ao longo do tempo. A Cadernos de História, percebendo essa defasagem, passa então a ter, além de sua revista regular, um blog mais dinâmico, moderno e de ampla acessibilidade.

Através dele levaremos a um público diversificado, dentro e fora da Universidade, um conteúdo atrativo, fascinante e de grande qualidade. O blog é uma plataforma para divulgação das atividades da revista, bem como de todo o Departamento de História da Universidade Federal de Ouro Preto. Mas não nos limitaremos apenas a isso: ele é uma ponta de comunicação com outras instituições ao redor do mundo. Estaremos atentos a tudo o que se passa na historiografia atual e, com uma linguagem mais dinâmica, compartilharemos nossas impressões com todos aqueles que amam o universo de Clio.

Além da divulgação de chamadas de artigos das mais variadas revistas de História do país, de editais de concursos para áreas afins e eventos acadêmicos nacionais e internacionais, o blog da Cadernos de História terá um conteúdo amplo, com entrevistas, vídeos documentários, avaliações do panorama historiográfico, opiniões e conteúdo lúdico ligado ao conhecimento do passado. Tudo isso para transformar o conhecimento dos tempos pretéritos muito mais acessível e interessante a todos.

Acompanhe nosso blog e saiba o que está acontecendo na historiografia contemporânea. Também não deixe de nos seguir no Twitter e nos curtir no Facebook, outros dois importantes links entre o periódico e o público.

Entre em contato conosco e dê a sua opinião sobre essa nova iniciativa e sobre o que espera encontrar aqui em nosso blog, através do e-mail: cadernosdehistoria@yahoo.com.br.


Um grande abraço e boa viagem no tempo!


Conselho Editorial
Revista Eletrônica Cadernos de História

Para acessar o blog: www.cadernosdehistoria.blogspot.com


domingo, 1 de abril de 2012

Ditadura se lembra, não se comemora


GOLPE DE ESTADO: Por definição é o ato de destituir ilegalmente um governo constitucionalmente legal. Por vezes ele ocorre de maneira violenta, por vezes não... mas em todo caso ele acontece para suprir as necessidades políticas de uma perversa minoria. Não obstante, nenhum governo se sustenta sem o apoio popular (Sim! isso é verdade), portanto, um golpe só acontece com o aval da grande maioria. Há golpes que vem para o bem, quem não se lembra da lindíssima Revolução dos Cravos em Portugal, a 25 de abril de 1974. Na ocasião os militares de média patente (Capitães na maioria), decidiram derrubar o governo salazarista de Marcelo Caetano e retirar os lusos de uma ditadura civil que já durava 41 anos. Mas no Brasil não, o golpe militar (com letra minúscula) foi um dos atos mais revoltantes e vergonhosos da história brasileira e humana. Foi o fim de um longo período de liberdade, o começo de um longo período de terror. Milhares de pessoas foram perseguidas, torturadas, mortas apenas para satisfazer os interesses políticos e econômicos de uma minoria. Alguém aqui realmente acredita que os comunistas tomariam conta do Brasil? Eu não, eles também. Hoje é 1º de abril, uma data que nunca pode ser esquecida e nunca deve ser comemorada. É uma tremenda imbecilidade o discurso de “quando tinha a ditadura as coisas eram melhores, não tinha violência, a escola era melhor, tinha emprego blá blá blá”... isso é ridículo, quem fala uma coisa dessa nunca viveu a ditadura de forma real, nunca foi preso, nunca apanhou, nunca sofreu nada. Vamos lutar para que isso acabe, que 1964 nunca mais volte, que os fascistas sumam do mundo. Não comemore a barbárie, lamente a existência dela e aja para que nunca volte. A liberdade é um direito universal, se você preza o seu, por que não garantir o do outro?

domingo, 25 de março de 2012

Micrônica de um clássico


Hoje é dia do maior espetáculo da Terra! Os torcedores do São Paulo e do Santos que me desculpem, mas clássico mesmo é Palmeiras vs Corinthians. O que move a rivalidade entre esses dois times é muito mais do que torcidas organizadas violentas, que nunca deveriam existir, mas é a paixão pelo verdadeiro futebol, pela arte construída nos gramados, que levantam multidões e faz marmanjo chorar de emoção. O derby é muito mais do que dois times de uma mesma cidade, é muito mais do que uma simples partida, é o símbolo de lutas extra campo que vem desde 1915 quando o Palestra Itália venceu o primeiro jogo contra o Corinthians. Um time não é nada sem o outro... festejamos como se fosse um título o rebaixamento um do outro, mas sentimos falta de disputar campeonatos diferentes. Quando os times entram em campo não existe “boa” ou “má” fase, os dois são grandes, os dois se agigantam em campo, não é a toa que em mais de 350 jogos o equilíbrio seja tão grande, mesmo historicamente o Palmeiras seja o melhor. Fato é que não existe rivalidade sem o outro; já não é mais comunistas contra fascistas (infelizmente), mas são dois clubes de tradição e força, detentores de centenas de títulos e glórias. Estarei torcendo ferozmente para que meu Verdão vença e destrua o Corinthians hoje, mas antes disso que ver uma bela partida de futebol, disputada no campo de forma leal, sem ajuda de juiz, sem violência dentro e fora do estádio. Ninguém deve morrer por futebol, e ninguém deve matar por futebol. O respeito tem que prevalecer acima de tudo, e as provocações são bem vindas desde que seja de forma saudável. Hoje vai ser lindo! Quero bola na rede para soltar um sonoro grito de GOL! Torço para uma grande partida, mas que vença a gloriosa Sociedade Esportiva Palmeiras.


quarta-feira, 21 de março de 2012

História: Ordem republicana e instituições políticas


Brasão de Armas do Brasil


Edgard Carone em seu clássico “A República Velha: instituições e classes sociais” propõe que uma das fragilidades do Império brasileiro fora o fato de não ter sido constituída uma nobreza hereditária. Não havia um elo de ligação mais forte entre a nobreza e a Casa Imperial, o que possibilitou, segundo o autor, uma grande adesão ao regime republicano já logo após a sua implementação em 15 de novembro de 1889. A República para muitos era inevitável, e gradualmente mais adeptos foram se filiando a nova forma de governo. A Ordem Republicana aos poucos era instituída (CARONE: 1978, 379-80).

Esta Ordem, porém, não se deu de forma tão ordenada. É muito recorrente na historiografia brasileira hoje o resgate da crônica de Aristides Lobo, publicada pelo Diário Popular no dia 18 de novembro de 1889, no qual se encontra registrada a célebre passagem “o povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava”. O povo do Rio de Janeiro estava assistindo a uma revolução, a instauração de um novo regime por acidente, aceitando um movimento que, para Rui Barbosa, não era seu e não tinha sido elaborada por ele [o povo]; era um acontecimento lamentável, para José Maria dos Santos (SILVA: 2005, 67-68). Em grande medida, não era um regime popular, no ambíguo sentido da palavra.

Uma vez destituída a Monarquia, precisava-se definir o paradigma republicano a ser adotado. José Murilo de Carvalho aponta que esse era um problema, pensado pelos intelectuais republicanos da época, que fora enfrentado de uma maneira diversificada. O autor de uma maneira esquemática, recorrente na historiografia sobre a primeira república, apresenta três tipos de manifestações republicanas que podiam ser identificadas naquele momento: o liberalismo, o jacobinismo e o positivismo (CARVALHO: 1998, 92-96).

Proclamação da República, 1893, óleo sobre tela de Benedito Calixto (1853-1927).
Acervo da Pinacoteca Municipal de São Paulo

A primeira posição, segundo o autor, era encabeçada pelos grandes proprietários de terra de São Paulo, que desde os primeiros anos da década de 1870 já se encontravam com o Partido Republicano organizado. A centralização monárquica já não dialogava com os interesses desse grupo, e o republicanismo de ordem federativa estadunidense era o ideal a ser seguido. José Murilo diz que nos finais do oitocentos o darwinismo social era a postura liberal mais comum no país, influenciando muitos, entre os quais o republicano paulista Alberto Sales pode ser identificado.

Sales, em 1887, afirmava que o país passava por um momento de turbulência política, e os comandantes do Brasil, principalmente os do Partido Republicano, deviam se posicionar frente às questões que envolviam a ordem nacional. O progresso social, para ele, manifesta-se por via de desagregações e agregações correlativas, assim como um progresso biológico. No entanto, esse processo na fisiologia é observado de maneira clara e homogênea, enquanto no desenvolvimento social ocorre de maneira mais obscura. A nacionalidade, em sua Teoria da Nacionalidade (SALES: 1983, 86-99), é uma construção política consciente, elaborada a partir de uma evolução de elementos sociais, culturais, etnológicos, geográficos e políticos, que permitem, que um conjunto e indivíduos, formando uma sociedade específica, unindo esses e outros elementos possam formar uma unidade psicológica e politicamente estruturada, estabelecendo, assim, o nacionalismo.

O federalismo norte-americano foi o modelo vencedor na primeira Constituição republicana, em 1891. José Murilo de Carvalho discorre em seu pensamento uma leitura em que mostra o federalismo democrático estadunidense como sendo uma instituição perfeita constituída em uma sociedade igualitária, e que o Brasil intensificava a questão da desigualdade sócio-política, e o darwinismo republicano brasileiro possibilitava a implantação do autoritarismo no Brasil (CARVALHO: 1998, 93)


O Clube Jacobino, 1893.

A segunda posição republicana perceptível nos primeiros anos do regime foi o jacobinismo. Este modelo era o mais radical dentre os três apresentados aqui. Há nesse grupo uma forte crítica ao passado Imperial brasileiro, argumentando que o fator preponderante para o atraso do Brasil frente ao resto do ocidente era a própria Monarquia. O xenofobismo também era uma marca do jacobinismo, principalmente no que se diz a respeito à figura do português. A república deveria ser construída, organizada e controlada por brasileiros e a Nação era a Nação de brasileiros. Ala de extrema radicalidade, que via no centenário da Revolução Francesa o momento perfeito para se efetivar a Revolução Brasileira.

O jacobinismo, lembra Amanda Muzzi Gomes, teve seu período de maior “ação”, ou pelo menos o Clube dos Jacobinos, durante o governo do marechal Floriano Peixoto (GOMES: 2008, 3). Convencionalmente a historiografia associa o movimento ao florianismo, que se diz da grande simpatia ao governo do segundo presidente do Brasil. Em lutas legalistas com a utilização de forças armadas, os jacobinos inflamados como patriotas, inspirados nos revolucionários franceses, defensores de uma ordem, uniam-se em favor de Floriano para combater os contrários ao seu governo. Exemplo disso é a revolta da Armada, em 1893, que tinha como líder o almirante Custódio José de Melo, que segundo Boris Fausto, frustrado em seu objetivo de suceder Floriano na presidência da República arma um levante contra o governo, e os jacobinos se voluntariavam em defesa do presidente (FAUSTO: 2006, 255). O grupo ainda se mantém nos primeiros anos do século XX, sendo considerados “desordeiros”, sobretudo durante a Revolta da Vacina, em 1904.

A terceira e última posição era a positivista. A República era de face positivista por excelência, que deveria ascender em detrimento da Monarquia, tendo como resultado o progresso, impossibilitado pelo Estado imperial. Outras duas e importantes idéias positivistas eram a secularização do Estado e a implementação da ditadura republicana. Paradoxalmente, e destacado por Carvalho, os militares foram os mais simpáticos ao positivismo, mesmo que um governo militar, de acordo com a tese comtista, significasse o retrocesso da sociedade. Acredito que seja digno de nota o fato do Rio Grande do Sul ter sido, talvez, o maior adepto ao movimento, e Minas Gerais o menor.

Em meio as três propostas identifico que a fragmentação política é evidente. Em um país do tamanho territorial semelhante ao Brasil não permite que um corpo político apenas o governe. Por isso, as unidades federativas surgem como auxílio para a constituição da nação. No próprio Estado há outras fragmentações de mesma ordem, numa teia administrativa. No entanto, a utilização de uma democracia liberal em seus moldes clássicos, no qual à vontade da maioria, e a possibilidade da maioria de governar não se faz presente. O Brasil é comandado por oligarquias regionais, caudilhos, como Sylvio Romero (1912) afirma várias vezes em sua obra.

Consolida-se, então, a República liberal, com Campos Sales. Há um empenho em minimizar disputas internas em cada Estado, a fim de controlar a instabilidade política, que deveria ter sido sanada com a instauração do regime republicano, mas que não ocorreu. O presidente, então, lança a Política dos Governadores. Boris Fausto define os objetivos dessa política como, mais uma vez argumentado, a redução, ao máximo, das disputas políticas regionais de cada Estado, prestigiando os grupos mais fortes. Outra característica presente nessa prática é chegar a um acordo básico entre os poderes Executivo e Legislativo, “domesticando” a escolha dos deputados. O governo federal, assim, sustentaria os grupos dominantes de cada região, em troca, apoiaria, a política do presidente da República (FAUSTO: 2006, 258-259).

Com isso, procurei explanar em linhas gerais as três principais vertentes republicanas surgidas no Brasil com a transição do regime monárquico para o republicano nos finais do dezenove, tendo como linha de raciocínio subsidiária a obra de José Murilo de Carvalho, e inserindo outras obras clássicas ou não sobre o tema em questão. Na busca do paradigma republicano ideal, o liberal federalista se mostrou o vencedor, tendo certa influência do positivismo, e o jacobinismo ridicularizado. O liberalismo consolidado no governo de Campos Sales se mantém até o Estado Novo, quando uma nova lógica de organização política entra em voga, da qual não me coube aqui discutir.


Referências Bibliográficas

CARONE, Edgard. A República Velha: I instituições e classes sociais (1889-1930). Rio de Janeiro/São Paulo: Difel, 1978.

CARVALHO, José Murilo de. Pontos e bordados: escritos de história e política. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998.

FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 2006.

GOMES, Amanda Muzzi. “Jacobinos: abordagem conceitual e performática”. In: Revista Cantareira. Nº 13. Rio de Janeiro, 2008.

ROMERO, Sylvio. A bancarrora do Regimen Federativo no Brazil. Porto: Typ. A vapor de Arthur José de Souza & Irmão, Succ., 1912.

SALES, Alberto. A pátria paulista. Brasília: UnB, 1983.

SILVA, Hélio. 1889: A República não esperou o amanhecer. Porto Alegre: L&PM, 2005.


(Texto apresentado para a disciplina de Brasil III, ministrada pelo Prof. Dr. Ronaldo Pereira de Jesus - DEHIS/UFOP)